Digital, graças a Deus

Por Renato Fleischner*

Com esse pano de fundo de incertezas e temores, alguns questionamentos logo se fizeram presentes: que tipo de planejamento caberia em um mercado editorial já antes turbulento? Como reagiriam leitores, colaboradores e fornecedores, e que impacto haveria na vida de todos? Como liderar equipes em home-office?

Passados nove meses, o saldo da tragédia pode ser contabilizado, de um lado, pelas mais de 190 mil vidas ceifadas, que exigem silêncio respeitoso pelas famílias enlutadas. Nada se compara à dor que viveram, e ainda vivem. De outro lado, pelo sucesso que, com coragem e inovação, o seguimento editorial alcançou, cumprindo assim seu papel de informar e entreter.

Por trás desse desempenho inesperado, um novo mundo digital foi posto à prova, “mundo” que não se resume apenas a publicações digitais, ainda que indubitavelmente fundamentais e das quais trataremos a seguir. Neste momento, contudo, vale a pena mencionar o papel expressivo de outras facetas desse universo. As interações em redes sociais foram essenciais para manter aberto o canal com leitores e clientes.

Pesquisas de produção e vendas patrocinadas pela CBL e pelo SNEL revelam que historicamente o setor religioso apresenta razoável estabilidade, tendo alcançando um share próximo a 16% do mercado, em 2019, em obras impressas. Contudo, em se tratando de publicações digitais o segmento religioso não apresenta o mesmo desempenho, com percentual inferior a 1%. Entretanto, o segmento religioso oferece uma gama expressiva de conteúdo de forma gratuita, cujas pesquisas não alcançam.

O livro campeão de vendas em quase todo o planeta, a Bíblia Sagrada, não só continua a apresentar um bom desempenho de vendas no formato impresso, como alcançou uma trajetória impressionante no ambiente digital, em aplicativos de leitura e em áudio. Disponível gratuitamente em diversas versões e traduções, chega a contabilizar, no aplicativo mais popular, mais de 2 milhões de acessos em um domingo típico.

Na Editora Mundo Cristão o digital foi sempre prioridade. Em 2012, iniciamos a conversão de nosso catálogo para o formato e-pub e, desde 2017, já convertemos cerca de 100 obras em formato audiolivro, incluindo os 66 livros de nossa tradução da Bíblia, cujo acesso pode ser feito gratuitamente e já alcançou mais de 2 milhões de usuários. Para 2021, já estão em produção outras 12 obras. E não vamos parar por aí.

O resultado desse investimento em obras digitais já pode ser mensurado. Em momentos de pico, a receita desse segmento contabilizou 5% do faturamento total. Trata-se de um resultado surpreendente, pois não estamos falando de substituição de faturamento, uma vez que a venda de obras impressas não caiu em 2020. Em vez disso e contra todos os prognósticos, experimentou crescimento.

Apesar do expressivo avanço do mundo digital, não trabalhamos com a perspectiva de que esse formato supere o impresso, afinal, criado há mais de 500 anos, o livro continua a se mostrar um produto revolucionário. Contudo, o avanço das publicações digitais cumpre papéis importantes.

Durante a pandemia, a receita de obras digitais dobrou, revelando que toda editora precisa entender-se não só como publicadora de obras impressas, mas como provedora de conteúdo. Por sua vez, o leitor precisa nos ver como uma fonte segura desse conteúdo, seja em formato impresso, seja digital. Vale aqui mais uma vez o lembrete: digital não é sinônimo apenas de eBook e audiolivro, mas abrange planos de leitura, blogs, podcasts, mensagens em WhatsApp e redes sociais, integrando um cardápio informativo que nos aproxima do público-alvo.

Embora ainda estejamos vivendo um cenário incerto, a pandemia nos ensinou algo precioso: independentemente da calamidade, é possível estar presente na vida dos leitores e leitoras, o que não quer dizer, contudo, que as livrarias físicas sejam dispensáveis. Ao contrário. É fundamental que o público possa ver e manusear os lançamentos.

A tecnologia não só é uma grande aliada na gestão empresarial, na produção de obras, na ampliação de formatos, na venda e no relacionamento com o leitor como ainda nos permitiu enfrentar a pandemia sem colocar em risco as pessoas e a organização. Cabe agora às editoras encontrar um modelo híbrido que, ao mesmo tempo em que valoriza o digital, reconheça o papel fundamental das livrarias como um espaço de convivência, disseminação e apresentação das novidades editoriais.

*Renato Fleischner é formado em Jornalismo pela PUC-RJ. Possui MBA em Marketing pela FEA-USP. Atua há mais de 30 anos no mercado editorial, 17 dos quais na Editora Mundo Cristão, como gestor de operações.

Login

Bem vinda! Entre na sua conta

Lembre de mim Perdeu sua senha?

Lost Password